terça-feira, 15 de julho de 2008

Peripécia

Em A Poética, de Aristóteles, temos vários conceitos (sim, eu me gabo pela nota máxima em literatura), e dentre eles, um bem interessante é o tal da peripécia: a palavra sugere "fazer uma volta, circundar", e o conceito é "mudança repentina dos acontecimentos". É, como já diria meu mestre e professor de violão, quando os enganos absolutos não significam nada. Você é o mais alto dos homens, Édipo, e um dia se descobre incestuoso e cego de seu próprio destino além de cego de seus olhos, lhe é dada as cinzas.

Mas em pleno início do século XXI (o que vocês estão achando da primeira década?), nos descobrimos livre dos antigos conceitos literários, nossa vida não é mais uma tragédia grega e não vamos um dia depararmos com o assassino de nosso pai em frente ao espelho, mas as coisas não estão tranqüilas, fico imaginando hoje quando passei mal provavelmente do fígado, sobre como as tragédias nos ensinam e entanto elas estão substituídas pelos livros de auto-ajuda, é como uma literatura lisérgica substituindo verdades (mesmo sendo verdades in illo tempore) por alucinações confortantes, ainda penso ser a arte inútil, sobretudo aquela feita com as palavras, mas penso naquela comparação do conceito de catarse com a última função da literatura descrita por Umberto Eco, a purificação por meio do terror e da piedade pode sim nos ensinar sobre o destino e a morte.

Estou sentindo necessidade de escrever, pena estar com os olhos doendo, mal-estar, meio enjoado e com medo de que forçar as vistas me provoque um vômito, mas talvez seja um risco pelo qual vale a pena correr...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A forquilha de seu nome - em prosa.

Olhei-a, incógnita ela era, seu resultante invisível, precioso. O mais interessante das incógnitas é, não o fato de não sabermos o valor delas, mas delas não saberem nosso valor. O cálculo infinitésimo da distância da estrela em função de um tempo relativo? Não, nada disso, era uma equação a parte, a segunda letra geralmente usada nas equações do ensino médio, quando não se pode usar a primeira, já tentei encontrar motivos para essa equação, mas é a tentativa de calcular minha lágrima, sempre...

A lágrima é a lúcula dos homens deste tempo, quando tudo está bem, é a luz a mácula, eis as dúvidas rindo por acharmos estarem enterradas, e ela, a incógnita me sorrindo entre os dentes de estrela com seus abraços inexistentes, ela fala comigo na noite pequena, às vezes ela fala sobre aguardar outra noite, a noite eterna, na qual não só nós dois, mas todos estarão dormindo à sombra dos mares-crepúsculos.

Eu a beijo em meu sonho e ela recua, tento lhe escrever um soneto com três buquês de rosa, mas sou pobre de dinheiro, sua rua fica ali em um céu perto, ela se cobre de símbolos enquanto faz seu chá para ser derramado nas alfombras míticas azuis do universo e anoitecer, ela nunca me mostrou as asas, mas já a vi voando em ave, quando em diversas contas ela me vem com cálculos renais e para fazer-lhe companhia no hospital eu mando um par de olhos, os mesmos olhos dirigidos para cada pedacinho de sua resolução.

Para os homens ela é morta... para mim? Rá! Perguntas ainda? Conhecei-a, um cometa, apenas, pérfida lágrima cósmica em túmulos fingindo ser boneca e em cada nota de cada música o silêncio de uma pausa invisível de quando não há pausa, em meu caderno é plenitude, incógnita. Olhei-a.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A irresponsabilidade das áspas...

Certo, descartemos todos os grifos e anotações aleatórias fingindo parte de alguma coisa, não fiz o trabalho para amanhã, trabalho inclusive com data de entrega para quarta-feira passada, mas prorrogado para amanhã... por que? Porque eu sou um irresponsável, que não está nem aí pra nada, aquele sem vocações para as coisas, que sequer se dá ao trabalho de fazer um trabalho para o curso de letras, trabalho este valendo dois pontos. Imaturo demais para uma vida acadêmica.

E eu estou com raiva, com raiva por não conseguir escrever o soneto pairando na noosfera de meu encéfalo por conta de uma falta de tempo (porque a técnica, a estrutura e o conteúdo estão aqui, mas o tempo para arrumar tudo...), raiva por, além disso, não conseguir estudar música o suficiente e minha mão esquerda estar problemática, estou com muita raiva de ter de me prostrar diante a mediocridade como um rendido, sem ter nem coragem de reclamar por repreensão da consciência, o grilo maldito da rendição conselheira, estou com raiva pela insensibilidade, pela simplicidade infantil dos sentimentos das pessoas, pelas minhas mãos atadas, por eu estar sempre errado e não conseguir tempo livre para fazer o trabalho e o pior, ter que disfarçar todo meu sentimento de angústia nessa desculpa e ainda aturar a existência de pessoas lendo isso crentes de que estou angustiado por conta de um mísero trabalho de faculdade. Não farei o trabalho de amanhã para a faculdade, mas o soneto sim. Pontos eu recupero depois...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Palestra interessante de hoje.

Prf. Felipe Valoz veio dar uma palestra para o pessoal da Emac, uma palestra bastante interessante e bastante incômoda à nossas certezas, mas quase ninguém estava lá, um amigo meu foi lá, mas achou mais importante tentar ficar com uma menina, outros não vieram por motivos diversos, outros, sabendo da palestra, acharam que podiam faltar... no fim, poucos.

Mas foi um dos momentos mais importantes para a minha formação, não obstante aquilo só confirmar minhas certezas quanto a música de massa, aumentar minhas dúvidas quanto o caminho da arte dentro da academia e dar aquela sensação de formiga perante a estética.

Coisas que eu peguei na palestra e quero refletir:

A linguagem é objetiva e, pensando a arte como sendo também um veículo de comunicação, algo deve ser comunicado por meio dessa linguagem, algo, portanto, pode ser analisado, no entanto, o fim daquilo é subjetivo.
O acorde místico é subjetivo para Scriabin, é problema dele o fato de ter conseguido aquele acorde por meio de cálculos transcendentes e chegado a um som místico, um acorde belíssimo, certo e de fato é algo incômodo e, pelo menos para mim, tal fato é significativo, mas o que nos importa realmente é ele ter feito algo com aquilo, trabalhado aquilo, é lá que a coisa vai se dar e lá que haverá comunicação, sobretudo com a mônada de cada um. Isso que realmente nos incomoda... eu posso passar algo de minha crença e irei sob forma de linguagem incomodar o sonho e o mistério das pessoas.
Aí está a arte.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Leite com chocolate

Certas profissões que tu escolhes mudam tua maneira de ver as coisas.

Não todas.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Nocturnal after John Dowland - Benjamin Britten (1913 - 1976)

Vou colocar o link desta maravilhosa peça aqui para os meus amigos baixarem,
fiquei querendo mandá-la pra todos os meus amigos, mas não deu, afinal, a
peça é um pouco grande para mandar pelo gmail, MSN daria se eu não estivesse
aparecendo pouco...

Aí fica para quem visitar o blog baixar a peça também, preciso dizer se é
boa? Trata-se de Benjamin Britten sendo tocado por Juliam Bream!

O link

PS: O Nocturnal não possui interrupções entre as partes, então recomenda-se
organizar um PlayList para que você possa ouvir as faixas em seqüência, sem
ter a interrupção para abrir a outra faixa...

sábado, 17 de maio de 2008

Diálogo à toa 1: Ubiratan e Marra.

Ubiratan diz:
O Rodrigo é esperto, viu?
Alf diz:
bom, rendeu em outro lado
Ubiratan diz:
Que outro lado?
Alf diz:
ele ficou na cabeça com aquela coisa de você ter dito pra ele
Ubiratan diz:
O que???
Alf diz:
que a aula de análise era desmontar relógio
Ubiratan diz:
Era uma brincadeira, achei que ele tivesse levado isso dessa maneira.
Alf diz:
acho que no fim de tudo levou mesmo...
Ubiratan diz:
Eu me referia a Pierre Boulez com esse negócio de bricoleur...
Ubiratan diz:
Bircoleur é a metáfora do cara que analisa a música como quem desmonta um curioso relógio. Boulez ironiza isso.
Ubiratan diz:
E Debussy também.
Alf diz:
Boulez deve ser um chato no dia a dia dele, rs
Ubiratan diz:
COOOM CERTEZA!!! Boulez deve ser um saco.
Ubiratan diz:
Ironiza tudo, desconfia de tudo, nada está do jeito que ele quer, tudo deve ser objeto de análise, nada deve escapar a sua ótica...
Ubiratan diz:
Um saco.
Alf diz:
pois então
Alf diz:
nem ele deve se agüentar
Ubiratan diz:
Ler Boulez é um saco.
Ubiratan diz:
Noooossa, demais...
Ubiratan diz:
Mas ele tem razão no que diz, infelizmente...
Ubiratan diz:
INFELIZMENTE...
Alf diz:
o que ele diz que tem razão?
Ubiratan diz:
Gostei quando ele citou Debussy, dizendo que ele tentava "ver, através das obras, os movimentos múltiplos que as fizeram nascer e o que elas contêm de vida interior", e que isso "não tinha o mesmo interesse que o desmontá-las como curiosos relógios."
Alf diz:
ele deve ter razão nisso aí mesmo
Alf diz:
o que não quer dizer que seja ruim
Alf diz:
até porque a imagem de desmontar relógio me é acompanhada de uma imagem de manipular o tempo
Ubiratan diz:
Debussy disse: É preciso procurar disciplina na liberdade. Boulez completa: Mas só há liberdade dentro da disciplina. É lindo. E funcional...
Ubiratan diz:
Mesmo?
Alf diz:
é claro
Ubiratan diz:
Manipular o tempo?
Alf diz:
o que de fato acontece
Ubiratan diz:
Como assim?
Alf diz:
quando o artista desmonta a peça ele manipula dentro não só os elementos da peça
Ubiratan diz:
Mas também...
Alf diz:
mas séculos e eternidades de tradição musical
Ubiratan diz:
Análise musical é uma atividade perigosa, na medida que se pode atruir a elementos razões que não existem...
Ubiratan diz:
Ligar tudo a qualquer coisa dentro de uma obra é bonito, mas perigoso.
Alf diz:
elementos não tem razões de início, mas tradições
Alf diz:
afinal, não estamos no meio do nada
Alf diz:
só usamos motivo, tema, etc por questões de tradição
Ubiratan diz:
Isso mesmo.
Ubiratan diz:
Eu vivo me propondo outra forma de compor.
Ubiratan diz:
Não se deve ficar atribuindo razões numa obra, se o compositor tivesse parado pra organizar tudo aquilo segundo uma lógica tão ferrenha, segundo uma unidade tão rigorosa, não teria saído sequer do terceiro compasso.
Alf diz:
A racionalidade tem que estar presente na obra, mesmo quando o nosso racional aparece de maneira pura, quando não pode ser posto em palavras.
Alf diz:
A coerência de uma obra não corresponde ao fato dela significar alguma coisa, mas o fato dela ter lógica, isso emociona, é uma loucura inerente a todo o ser humano.
Alf diz:
É poético mais que tudo.
Alf diz:
E o fato dela ter lógica não corresponde ao fato dela ter ou não um sentido claro e dizível, como tentei dizer nas mensagens acima...
Ubiratan diz:
Claro que o compositor tem consciência de seu processo, da sua intuição, mas certas coisas sao fruto do acaso e não tem qualquer relação com o que veio antes, ainda que posteriormente possam ser facilmente ligadas à idéia primordial por um bom bricoleur, pelo simples fato de funcionarem muito bem dentro do contexto...
Ubiratan diz:
Sim, sim, sim, sim, não estou aqui defendedo a falta de razão no processo criativo.
Alf diz:
se são ou não feitos pelas mãos do acaso e não do compositor, pouco importa, a obra diz aquilo e fim, se formos procurar o que o compositor quis colocar lá estariamos em uma aula de "partituromancia" e não de análise musical...
Ubiratan diz:
Eu estou falando de atribuição de sentidos inexistentes a uma obra. O compositor está longe de ter domínio sobre tudo o que acontece na obra.
Ubiratan diz:
Não estou dizendo que a gente deve identificar onde está o fruto do acaso numa obra, só estou dizendo que e gente deve parar de ficar ligando tudo a qualquer coisa, certas coisas estão ali e funcionam bem, são fundamentais dentro do contexto, mas não tem relação alguma com a idéia primordial, não nascem dela.
Alf diz:
Existem fatores até místicos aí no meio, mas isso não é nosso campo, nossa tarefa é compor e enxergar a composição das obras.
Ubiratan diz:
Não quero que se analise as intenções do compositor. Isso não importa tanto.
Alf diz:
Ninguém analisa intenção de compositor.
Ubiratan diz:
Pois é.
Ubiratan diz:
Mas quando se faz música se pensa MUITO MAIS ALÉM dos mecanismos internos.
Ubiratan diz:
Eles são fundamentais, mas não encerram uma obra.
Alf diz:
Mas a relação das coisas na obra tem de ser analisadas, ora, é como um texto escrito neste ponto, se o tema é maçã e lá na frente ele começa a falar das características de uma planta é para se referir à maçã e concluir o texto.
Alf diz:
De fato, numa obra musical quase tudo escrito lá é referência a algo escrito antes, isto está na base da composição da música ocidental, que se formos fazer referências e referências vamos chegar lá na lógica aristotélica...
Ubiratan diz:
Então tudo bem, vamos fazer de conta que tudo se resolve dentro de um método. Faz de conta que basta ter uma idéia e pronto, e resto há de sair dali mesmo, que é só uma questão de aplicações que a lógica interna flui por si só.

Alf diz:
Nem tudo se resolve dentro de um método e não basta ter uma idéia e pronto.
Alf diz:
Porque essa questão de aplicações de uma lógica interna
Alf diz:
Vai para o infinito, simplesmente.
Alf diz:
É por isso que um computador não compõe.
Ubiratan diz:
Tudo bem, tudo bem, tudo bem.
Ubiratan diz:
O músico, quando pretende entrar em introspecção analítica, é sempre suspeito.
Alf diz:
e Boulez é um chato de galocha
Ubiratan diz:
Demais.

[...]

É claro que nenhum de nós dois acha as músicas de Boulez chatas.